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  • Foto do escritorJornal Poiésis

Politização ambiental

Atualizado: 5 de abr. de 2021



Francisco Pontes de Miranda Ferreira*


A partir da Revolução Industrial evidenciamos alguns impactos no planeta como o acúmulo de CO2 e metano (CH4) na atmosfera, a ocupação humana de praticamente todo o planeta, a perda da biodiversidade e a extinção de várias espécies. Assim como transformações marcantes no solo e no regime hídrico provocados pela urbanização, a construção de megabarragens, a implantação de parques industriais e a mineração em alta escala. Fazemos parte da coevolução dos sistemas socioecológicos. Fato que aumenta nossa responsabilidade na produção do espeço e que eleva a importância da política.


A politização das questões ambientais, sociais e territoriais pode produzir várias maneiras de relações entre a sociedade e a natureza hegemônicas ou contra hegemônicas. No entanto, assistimos hoje um perigoso processo de despolitização, num momento em que estamos correndo o risco de um colapso total. Não existe uma natureza neutra, de fora que está aguardando uma salvação. A produção de novas formas de relações sociedade/natureza é um fator político que inclui necessariamente o capitalismo.


Alguns argumentam que mudanças são possíveis para salvar a natureza dentro do próprio sistema capitalista. Assim CO2 se torna commodity e vários aspectos socioambientais são economicamente valorizados. Até desabrigados e mortos de uma tragédia são economicamente valorados. Demandas ambientais são des-ideologizadas como se fossem universais, apolíticas e pertencentes ao campo técnico e científico ou a projetos econômicos (SWYNGEDOUW, 2020).


O poder público se torna uma instituição administrativa e técnica. Elimina-se assim o genuíno espaço para os debates, desacordos e conflitos. Surgem argumentos em que a polarização entre direita e esquerda é considerada ultrapassada. Na questão das mudanças climáticas assistimos essa despolitização em que consensos são supostamente forjados. Surgem as conferências e os acordos internacionais técnicos e despolitizados, em que a lógica capitalista que inclui as privatizações, as commodities, o mercado, o sistema financeiro continua fortalecida. A posição tecnocrática e científica prevalece no lugar da discussão sobre as relações sociais e a necessidade de participação política. Como se uma ação humanitária despolitizada comum fosse possível. Como se uma elite técnica, científica e diplomática fosse capaz de resolver os problemas ambientais, para que o capitalismo continue funcionando. O fato é que o capitalismo, pela sua própria lógica de funcionamento, é incapaz de resolver os problemas socioambientais. Temos que politizar as questões socioambientais, levarmos em consideração as injustiças e desigualdades e debater a legitimidade de um sistema que provoca miséria e degradação ambiental.


Fortalecer a intervenção política das comunidades, dos pobres excluídos e marginalizados e dos povos tradicionais. Este engajamento político necessariamente vai gerar conflitos, muitos violentos, que vão ressaltar a luta de classes.


Referência

SWYNGEDOUW, E. Whose Environment? The end of nature, climate change and process of postpoliticization, erik.swyngedouw@manchester.ac.uk, 2020.


*Francisco Pontes de Miranda Ferreira é Jornalista (PUC Rio) e Geógrafo (UFRJ) com mestrado em Sociologia e Antropologia (UFRJ), pós graduação em História da Arte (PUC Rio), Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, membro do conselho editorial do Jornal Poiésis. É diretor da Arcalama Serviços de Comunicação (www.arcalama.com.br)

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