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  • Foto do escritorJornal Poiésis

Ano novo?


Matheus Fernando*

Eu queria ser mais romântico ao passar por aqui nesse início de ano, juro! Mas não consigo e para ser sincero não quero. Sim, começamos bem o nosso relacionamento esse ano. E tudo isso por conta de um ranço natural que eu tenho dessas “energias” de datas comemorativas, sobretudo a de “Ano Novo.” Simplesmente porque de novo não tem nada. Não passa de uma data virada no calendário, só isso. O resto é mera fantasia misturada à vontade de mudanças e algumas realizações - que na maioria até são legítimas.

E no início do mês já tem contas e mais contas para pagar, como todo bom início de mês. Escrevo essa crônica no dia 7 de Janeiro e o mês está aí, rugindo como um leão, buscando a quem lhe possa tragar.

Quanto às metas - para quem gosta de colocá-las no papel e correr atrás das mesmas durante o ano - estão lá estacionadas. Okay, tivemos um ano atípico no ano passado. A pandemia parou o mundo, as dinâmicas sociais foram completamente modificadas, nosso cotidiano foi parado de alguma forma. Mas qual foi a desculpa dos anos anteriores?

Todo ano a gente dá uma desculpa. “Esse ano eu vou estudar!”, “Esse ano eu vou ler mais!”, “Esse ano eu vou fazer exercícios físicos!”, “Esse ano eu vou emagrecer!”, esse ano, esse ano, esse ano. E renovam-se as metas - para quem coloca as bonitas no papel - na mesma medida em que renovam-se as desculpas.

E se eu tivesse coragem para perguntar à minha tia Júlia que todo ano promete para todos e para ela mesmo que irá emagrecer. “E aí tia, o que houve?” Talvez respondesse ela:


- Ah meu filho, frio, né? No frio é difícil por causa do fondue.

- Poxa meu sobrinho, final de semana é difícil por causa da festinha.

- Durante a semana é difícil porque está muito corrido.

- De manhã é difícil porque o marido comprou pão, sabe como é né?

- A noite é difícil porque eu sento para ver um filme.

- Na pandemia é difícil porque estou muito em casa.

- No final de ano é difícil porque tem Natal.

E assim segue ela, e assim sigo eu. E assim seguimos nós como ‘todo’ bom brasileiro. Não vim aqui falar mal dos outros. Vim falar mal de mim mesmo. Do quão indisciplinado, sem horário, sem rotina por vezes eu sou. Detesto processos. Mas e quem gosta? Até porque a gente sempre dá um jeito. No final das contas somos todos um pouco Macunaíma como já profetizara o nosso querido Mário de Andrade. O famoso retrato do “jeitinho brasileiro.” Eu não mudei nada em mim ainda do dia 31 de Dezembro para o dia 01 de Janeiro, então não tem nada de ano novo. Não me deem feliz ano novo!

Matheus Fernando é aluno de graduação em Psicologia na Universidade Federal Fluminense. É escritor que transita entre gêneros literários como poesia, crônica, conto, peça, ensaio e artigo

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